domingo, 21 de setembro de 2008

Novo capítulo

Novo capítulo, novo blog:

http://auroradeicaro.blogspot.com/


Isso, me mudei.
Nos vemos por lá, na aurora de Ícaro.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Poema curto

Se eu pudesse, transformava minha vida num poema curto
pra alguém ler, chamar de chato
amassar, tacar num saco
ou enrolava bem fininho, punha alguma coisa dentro
e fumava devagar sobre aurora ou ocaso
ou esmigalhava em mil milhões de átomos de vida,
punha numa garrafa de uísque vazia
e entornava pra dentro
e de cara lavada, mas nem tão limpa
encarava sem poder mudar
o vivo irreversível lá de fora.

(Eliza Vianna - http://umabonecasemanual.blogspot.com/)


Acho que esse é meu seu-poema preferido. Sei lá, gosto muito mesmo dele. E olha que - eu já te falei algumas vezes - você é uma das poucas pessoas que eu admiro poeticamente de fato (dentro da minha esfera de conhecidos). Engraçado, não consigo falar de você em terceira pessoa, como sempre falo das coisas aqui no blog, como falasse pra um público sem cara (que na verdade tem certas caras bem definidas sim, hehe). Desculpa a divisão aleatória de estrofes. E por ter inventado um título pro poema! Mas é o jeito como eu me refiro a ele sempre.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Fragmentos, confissões.

"Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,

de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.

Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,

é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de."

[Drummond]

***

- Relaxa. Você acaba vendo a beleza e a poética do desassossego.

- Sério que você está falando isso pra mim? Não aguento mais ver a beleza poética do desassossego. Da tristeza, da angústia, da melancolia, da nostalgia, da aflição... da solidão. "Não sou alegre. Sou até muito triste." Mas isso tudo é só vontade de parar de sentir essas coisas todas. Mas eu não consigo. Porque isso não dá pra fazer sozinha. O único remédio, o único remédio mesmo - e é por isso que esse é o grande objetivo da humanidade - é o amor. Mas isso não existe pra mim.

- Não escute nada da Edith Piaf hoje. Do contrário cometerás suicidio. Mas falando um pouco mais sério: você é feita para o amor, como todos nós. Você mais que outros, minha linda poeta. Acredite.

- Isso é andar na beira do abismo, meu amigo. Pra se jogar é só um passo... Eu precisava mesmo era de um arsenal eterno de brigadeiro, álcool e cigarro. Aí sim! Aí eu morreria antes dos 30 e de quebra ainda seria uma poeta célebre.

-E eu escreveria um livro biografico sobre sua vida e ganharia milhões.

- Tô transformando nosso diálogo num diálogo no blog.

- Transforme no que achar melhor. Tanto que nos transforme também.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Valha-me o samba!

Ao amigo Felipe Duque (o Valença!)

A tristeza
é senhora.
Bamba que é bamba
também chora.

Malandro molha a navalha
com sangue de nêgo besta,
suor de muito trabalho
e orvalho que cai dos olhos.

Valha-me o samba!
Que a tristeza não me vale
se não vira poesia.

Um nêgo de verde e rosa
me cravou no peito um espinho:
"Ouça me bem, amor,
o mundo é um moinho".

A viola do Paulinho
me cantou um fim de amor.
Mas de repente "Portela!"
uma voz anunciou.

A dor no samba é assim:
Bate coração no surdo
Chora o couro da cuíca
Cavaquinho encanta a alma
e a tristeza se transmuta.

Encham-se os copos!
Pra dor, no samba, se sorri.
Dancem os corpos!
Deixem de lado o baixo astral!
Samba, morena...
que eu não vim só pra assistir.
Valha-me o samba!
Me fez da vida carnaval.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

História de um poema que foi correndo e eu empaquei.

É genial o tempo passar.

Hoje pela manhã, quando o ônibus chegava no fim da ponte, eu comecei a escrever um poema enquanto ouvia Tudo passa, do CD novo do Marcelo Camelo, "Sou".

A idéia do poema veio toda sedutora, as primeiras duas estrofes pareceram perfeitas.

Só que aconteceu uma coisa que não me acontecia tem muito tempo: o poema, afinal, não aconteceu. Desci do ônibus, cheguei na UFF e reescrevi o dito cujo. Atrasada pra aula, deixei pra olhá-lo de novo depois. Mais tarde escrevi algumas outras versões, e poema foi caminhando por uns caminhos malucos, diferentes do que eu desejava. Tentei seguir atrás do poema, trabalhar com ele, ir até onde ele queria chegar. Andei depressa, cheguei a dar uma corridinha até. Mas não deu. Empaquei com o poema quando me dei conta de que eu não tinha nada pra oferecer pro Tempo.

A história é a seguinte: tinha esse alguém que não conseguiu viver certa coisa em vida e decidiu negociar com o Tempo, já que estava no fim dos seus dias. Propôs a Ele uma barganha através da qual a morte se transformaria numa vida nova, um espaço-tempo eterno que ia servir de palco pra essa certa coisa acontecer.

Tudo ia razoavelmente bem, até que eu me dei conta que uma barganha implica que os dois lados ofereçam e recebam alguma coisa. E o que é que o Tempo não tem?

Permitindo isso o Tempo,
dou-lhe em troca...
o quê?
o que é que eu tenho
pra oferecer pro tempo
em troca de transformar
a morte numa vida eterna?
O que é que o tempo não tem?
Ele já tem os dias e as horas,
tem as mudanças na História,
tem toda a Eternidade
O que é que o tempo não tem?

Parei aí. Mandei uma mensagem pra um amigo poeta que talvez me respondesse.

Direção, moral ou inércia.

Moral? Não.
Inércia... talvez agradasse o tempo, mas não é um presente bacana de se dar.
Direção?

Nem tenho isso não.

Empaquei aí. Decidi então desistir da barganha; ficar de repente com o clichê poético de desafiar o tempo. Só que aí... o poema não tava nesse caminho. Ficou ruim, a poesia não acompanhou. Até minhas primeiras estrofes perfeitas perderam todo o ritmo.

Mas foi tudo isso bom. Bom exercício de escrita, bom exercício físico também fazendo um jogging atrás do poema na estrada.

****

Tenho esse amigo que volta e meia canta sua bipolaridade. Vai ver nem é isso... é só que o tempo passa, os sentimentos mudam. Às vezes tão rápido que a poesia sai correndo e não dá nem tempo de escrever. Ela muda de caminho e a gente até empaca. As sensações (pensadas aqui como sentimentos manifestos no nosso humor) são ligeiras, se a gente se deixa levar. E às vezes isso pode ser tão bom...

...ver a tristeza passar correndo, presa no passado da noite anterior. Ver sorriso, afeto e graça brotarem de súbito, rir de algum riso bobo, ver no corriqueiro o engraçado.


Acho que esse texto fica mais como um intervalo no blog, que anda meio super-saturado de sentimentos demais.

E como um pedido de desculpas pelo poema malcriado aí embaixo, mas que vai continuar aqui, porque, sabem, malcriação pode ser coisa séria, hehe.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Vômito

"Há dias em que eu ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando."
Explicação - Carlos Drummond de Andrade


A Vida é muito escrota.

Tá ela agora lá,
rindo da minha cara.
Rindo, me dizendo:
- Caiu, otária!

Otária.
Uma piada,
joguete na mão
da Vida.

Eu que pensava
saber tanto de mim.

Merda de mundo relacional,
aqui todo mundo mente.

Todo mundo mente
e quem diz a verdade
e pensa ouvir a verdade
é um babaca
burro
desavisado

Que esperança
é pra eu ter nas pessoas?
Que fé que é
pra eu ter na humanidade?
Se esse lixo todo mente
se destrói
se engana
envaidece

Que nojo de todos vocês.
Ferem-se uns aos outros
Esmagam corações bonitos
um por um
mortalmente
até que não reste um só
coração bonito.

A felicidade é uma mentira que inventaram
pra que a queda dos inocentes
seja ainda de mais alto.
Quanto maior a queda
maior a risada dos magos regentes
dessa tragédia humana.

Eu odeio todos vocês
porque vencem sempre
Causam uma queda
depois de outra queda
cada uma mais alta
que a outra

E é genial.
Pois quanto mais eu resisto
insisto na esperança
na inocência imbecil de sonhar
quanto mais alto eu vôo
é sempre maior a queda
e tão mais alta a risada de vocês.

Eu os odeio por terem montado
essa máquina cruel que é o mundo:
se eu resisto,
eu perco.
Se desisto,
embruteço,
perco.

Pra que serve a poesia
se esse mundo é só mentira
e poesia é só verdade?

A poesia é uma venda
que me mostra só as nuvens
e esconde a podridão.

Fico andando às cegas
à beira de abismos
sempre caindo
sempre caindo
sempre fazendo
a alegria de vocês.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O que faz dos heróis heróicos.

Anoitece na metrópole.

As luzes da cidade
iluminam o caos instaurado.

Ladrões de bolsa de velhinha,
Ladrões de banco encapuzados,
Ladrões de beijo de mocinha,
Ladrões da calma da cidade.

Nosso herói suspira:
hora da lida outra vez.

O caso da noite
é dos mais difíceis:
ele vai de encontro
a um ladrão roubado.

Mira seu alvo
numa janela:

Linda.
Pele dourada e macia,
os olhos rasos d'água.

Ele vai até ela,
olha em seus olhos aguados
e usa seu poder:

cede a ela coragem
pra que possa, sozinha,
ir atrás do seu ladrão.

Vê então
nos olhos castanhos
a coragem heróica
que até então
tinha lhe faltado.

Ela vai,
seu ladrão à espera.

Ela tomará pra si
o coração do gatuno,
já que ele
lhe havia furtado
o seu próprio cárdio.

Ela vai,
e nosso herói fica.

Suspira
e observa ir embora
a ladra que vai roubar ladrão.

Uma ladra
da pior espécie,
porque despreza
o que roubou.
Grandioso tesouro,
valiosíssima carga:
o coração do herói,
mal-amado, amargo.

Nosso herói suspira:
ser heróico
cansa o sujeito...

Não temer, ser bravo,
quase sempre
implica perder.

Mas ele é herói,
e vai em frente!

Não temendo a morte,
vai temer solidão?

Não!

Ser herói
é endireitar o mundo.

Libertar
quem é preso.
Encorajar
onde há medo.
Nem que pra tal
seja preciso
findar o próprio sorriso
no processo.